Heloisa Marra
: Heloisa Marra

Uma estrela que aprendeu a trabalhar como operária. Assim Marilia Pera se definiu numa entrevista que fiz com ela para o jornal O Globo em 2005 ao estrear "Marilia Pêra canta Carmen Miranda". O encontro me deixou nervosa. Marília era um ícone para mim. Eu a acompanhava da novela "A moreninha" (1965) a peças como "Doce deleite" (1981), "Mademoiselle Chanel" (2004) ou "Apareceu a Margarida" (1978), de Roberto Athayde. Sem falar em filmes como "Bar Esperança" (1983) e "Pixote, a lei do mais fraco" (1980). Nesse dia procurei, na medida do possível, tratá-la como uma diva.

carmen

Só tocou nas uvas

Fui buscá-la em seu apartamento na Lagoa. Pedi para limparem e varrerem o estúdio de fotografia do jornal, rezando para que ela não notasse o péssimo estado da pintura da parede. Comprei petit fours, frutas, sucos e montei um pequeno catering para esperá-la. Magrinha, elegante, tocou apenas nas uvas. Para completar o set, convidamos também o figurinista Fabio Namatame, que também fui buscar com as roupas.

chanel

Notei que a atuação como Chanel no palco tinha refinado ainda mais seu estilo. Nos anos 70, quando a entrevistei pela primeira vez, me deparei com uma Marília irreverente, casada na época com Nelson Motta. Ela reestreava o monólogo "Apareceu a Margarida", causando polêmica por ter incluído o ator Francisco Ozanan nu em cena.

margarida

'Gostei do bumbum dele'

Vivi então meu momento foca ao perguntar porque ela tinha resolvido incluir Ozanan e a resposta veio rápida: "porque gostei do bumbum dele". Mas voltando a Chanel e ao nosso segundo encontro, Marilia disse, orgulhosa, que sua interpretação de Mademoiselle emocionou o chapeleiro da maison, Ludovico Michel. Ludovico fez um chapéu para ela e a partir desse chapéu, o figurinista Fabio Namatame criou as roupas de Carmen, verdadeira obsessão na vida de Marilia. A atriz interpretou a pequena notável cinco vezes.

pixote

Uma Carmen só para nós

Na hora das fotos, feitas por Leonardo Aversa e produzidas por Eduardo Roly, compreendi o sentido de uma das frases ditas por Marilia na entrevista: "trabalho de fora para dentro". Luz pronta, câmera a postos, ao entrar no luxuoso figurino de Namatame, Marilia interpretou Carmen só para nós. Em gestos lentos e perfeitos, compondo cada quadro, diante da equipe hipnotizada, foi a pequena notável em cada gesto, olhar e sorriso.

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Vida de circo

No camarim, ela contou que conheceu o pai de seu filho, Ricardo, Paulo Graça Mello, no Teatro João Caetano quando tinha 16 anos. Pouco antes do Ricardo nascer, os dois fizeram excursões com o circo Tihany pelo Brasil. "Eu toda apertada porque interpretava uma menininha virgem", lembrou.

rosa

Encontrei uma Marilia Pera, de 62 anos, em plena forma física e profissional, atriz cheia de projetos e mãezona de Ricardo, Nina e Esperança, filhas dela com Nelson Motta. Casada com o produtor Bruno de Faria, ela acabara de fazer Chanel mas se preparava para viajar com a peça a Portugal. Ia começar a filmar "Embarque imediato", de Marcelo Florião, e na volta de Portugal viveria Sarah Kubitschek na série "JK", de Maria Adelaide Amaral. 

Henfil enterrou Marilia Pera de Carmen Miranda nos anos 70

Marilia lembrou que em plena ditadura militar, fazer Carmen Miranda era politicamente incorreto. Para as primeiras apresentações teve uma enorme dificuldade de conseguir referências. "Queria ver Carmen dançando e não encontrava nada. E ainda levei um susto quando vi que o Henfil, que eu adorava e admirava, me enterrou no cemitério dele (o cartunista costumava desenhar um cemitério onde enterrava pessoas que ele considerrava alienadas em relação à ditadura como Elis Regina, Pelé e Roberto Carlos) vestida de Carmen Miranda".

Adorei saber como foi o seu começo no teatro. Filha dos atores Manuel Pêra e Dinorah Marzullo, ela começou no palco com Henriette Morineau e Dulcina de Moraes. Teve o privilégio de conviver com duas divas da tragédia e da comédia. Vestia as duas no camarim, acompanhava a maquiagem e tinha paixão por elas.

'Estrela para mim sempre foi ligada ao trabalho'

"Depois fui fazer balé", contou. "Adorava Berta Rosanova, Tamara Tomanova, as estrelas do Bolshoi, Vivien Leigh no cinema. Cacilda Becker, mais tarde. Em todas elas eu via uma estrela trabalhando como uma operária. Na época da Dulcina e da Morineau, elas ensaiavam às 9h da manhã até uma e meia da tarde, almoçava, voltavam, faziam uma matinê, lanchavam, e apresentavam duas sessões à noite. A estrela para mim sempre foi ligada a muito trabalho". 

Atriz completa, cantora, produtora, diretora, Marilia sempre escolheu mulheres intensas para interpretar: Dalva de Oliveira, Carmen Miranda, Maria Callas. Com mais de 50 peças, quase 30 filmes e 40 novelas, sai de cena deixando uma saudade imensa e uma sensação de que, pelo menos no Rio de Janeiro, não foi aplaudida como merecia.


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