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No palco, o príncipe de Hastinapura, Arjuna, vivido por Luca, se recusa a começar a guerra, para a qual se preparou a vida a toda. Cabe a Krishna, Deus encarnado vivido por Livia, encorajar o guerreiro, reconduzindo-o ao foco da luta. Guardadas as devidas proporções, Luca e Livia viveram um dilema parecido ao decidir montar uma peça em Nova York. 

Quem foi Arjuna e quem foi Krishna nesse momento?

_ Ele foi Krishna e eu fui Arjuna _ diz Livia, rindo.
_ Os papéis foram trocados _ admite Luca Bianchi.
_ Eu nunca tinha morado fora _ continua Livia. _ E ele morou em Nova York, fez o Lee Strasberg Institut. Pensávamos em produzir um texto sobre Modigliani com Miguel Colker mas esse veio primeiro. Ficávamos em casa procurando textos para montar e Luca lembrou do Dhrama, que ele viu em 2007. Como adoramos temas ligados à espiritualidade, pensamos em fazer. Passou um tempinho e ele veio com essa ideia louca e brilhante de traduzir para o inglês.

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Ao começar a traduzir o texto de João Falcão para o inglês, Luca foi gostando cada vez mais da ideia de montar a peça em Nova York.

_ João Falcão usa palavras fortes _ conta Luca Bianchi _ como guerra, batalha e outras, que ficam bem sonoras em inglês. O sotaque, que poderia ser prejudicial, acabou contando a nosso favor. Como são dois deuses, esse sotaque acabou combinando com a atmosfera da peça.

Com uma especialista, Livia e Luca aprenderam a falar inglês pronunciando corretamente as palavras sem tirar o sotaque.

_ A tradução era legal mas tinha umas coisas no texto do João Falcão que eram muito brilhantes. Ele escrevia num português antigo. E nosso texto em inglês estava sem isso. Fomos buscar essa diferença. Um dos críticos escreveu que estávamos usando linguagem shakespeariana. Foi outro grande acerto _ explica Luca.

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Encenada entre 22 de maio e 8 de junho de 2014, a peça foi bem acolhida pela crítica em Nova York. Os dois tiveram três meses para produzir, ensaiar e apresentar. A coreografia dos gestos, que transforma a apresentação num interessante balé, foi criada por Carlos Fittante, do Balam Dance Theatre, companhia de dança balinesa, e por Marina Magalhães.

Primeira peça dirigida por Luca Bianchi, “Dhrama” tem uma estética requintada e original. Em Nova York, ele teve a ideia de pintar o cabelo de Livia de azul.

_ Luca falou: e se pintássemos seu cabelo de azul. Krishna é sempre representado por um avatar azul _ lembra Livia. E eu: não vou ter cabelo azul! Acabei pintando. Aí veio o filme: “Azul é a cor mais quente”. Ele teve a ideia muito antes do filme. O cabelo fez um sucesso absurdo em Nova York. Foi o cabelo que eu mais amei ter na vida. Para as fotos ficou lindo! A crítica entendeu o deus azul e o cabelo. Muita gente não sabe mas Krishna é um deus negro, representado pela cor azul. Em sânscrito, Krishna é um adjetivo, que significa azul escuro, negro e o feminino é noite.

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Na versão brasileira, Livia de Bueno substituiu o azul pelas tranças africanas. O figurino, de Paula Raia, para Livia é composto por uma meia calça com pérolas no tornozelo, um body, uma hot pant e uma calça por cima.  

_ A calça que uso é muito legal _ diz Luca, que veste um modelo sarouel semelhante ao de Livia._ Todas as meninas amigas minhas me pedem: me dá aquela calça pelo amor de deus!

Chão de areia, pentagrama iluminado, pequenas e delicadas luzes simulando o céu e o infinito, a luz do espetáculo é do premiado Renato Machado e no Rio, a cenografia é do arquiteto Miguel Pinto Guimarães, um apaixonado por teatro.

Dias de Arjuna em Nova York

Em Nova York, a adrenalina da estreia fez Livia chegar a ter medo de não dar conta do texto.

_ Foram dias de Arjuna _ brinca Luca.
_Tem um pedaço de Krishna com três páginas. Eu pensava, não vou conseguir _ lembra Livia. _ Foi um grande desafio mas maravilhoso. A gente pulsou muito como artista. Resolvemos morar fora, casal, fazer arte. Escolhemos fazer um trabalho em vez de estudar. Foi ótimo!

A espiritualidade é um dos temas que mais interessam a Livia. Ela conta que se converteu ao budismo com 24 anos.

_ Foi um grande achado _ diz Livia, que está com 31 anos. _ Eu era católica, frequentava a igreja mas depois virei ateia. Não sou muito ligada a grupos. Gosto muito do que o Osho fala: que a busca individual é mais interessante do que você ficar preso a uma instituição. Gosto da religião no sentido de religare, a ligação com a sua espiritualidade. Gosto do paganismo, através do qual você se liga à natureza.

Na hora de descansar, além de meditar (prática que tem sido mais difícil para Luca nos últimos dias) cada um tem um hobbie. Livia adora moda e astrologia e Luca estuda Física.

_ Sou católico _ conta Luca _ mas nunca consegui me integrar com religião nenhuma. Passei por várias mas me encontrei na meditação individual. Minha busca é conectada com a ciência e a física. Estudo muito porque acho que é ali que está a espiritualidade. Se a religião de todo mundo fosse aquela, estaríamos em outro estágio.

Dhrama e a volta dos anos 70

A encenação de Dhrama acontece num momento de volta dos anos 70 na moda e no comportamento. Livia e Luca gostam de festivais. Não só os de música mas festivais como o Be In, em Portugal, com música, dança, xamanismo e healing. Recentemente os dois fizeram um curso de cabala no Instituto de cura Esalem em Big Sur, na Califórnia.

Livia lembra que o Bhagavad Gita era a bíblia dos anos 70.

_ O Raul Seixas tem uma música chamada Gita. Acho que o Brasil deveria ser um país hippie. Nós perdemos uma oportunidade, que foi a Marina. A gente se dividiu entre Dilma e Aécio e perdemos a Marina, a única política que até hoje se colocou a favor de um Brasil sustentável _ diz Livia _ Na moda eu nem sou tão anos 70. Sou mais boyish. Gosto de calça de alfaiataria. Filosoficamente e psicologicamente eu amo os anos 70.

Para Luca Bianchi, os ideais dos anos 70 de repente se perderam:

_ Nos anos 70 
foi como se pela última vez estivéssemos num caminho correto. Depois fomos para um lugar muito esquisito. Existia um sentimento de união, de que o material não é tudo, uma vontade de compartilhar, a  música... De repente se perdeu. Eu curto as coisas dos anos 70. Gosto muito de surfe e o surfe dos anos 70 tinha pranchas mais grossas. Você não ficava fazendo um monte de manobra. Surfava junto com a onda. Era um surfe mais macio.

Fotos: Vicente de Paulo

 



 

 
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