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Heloisa Marra
: Heloisa Marra

Entre formas abstratas, orgânicas e supercoloridas, intrigantes silhuetas femininas flutuam em branco nas pinturas de Maria Lynch, que faz pela primeira vez sua exposição individual "Acontecimento encarnado" até 13 de abril na galeria Anita Schwartz. Vale a pena mergulhar na misteriosa e estranha maciez desse universo.

 

 

“Decidi fazer essas mulheres projetadas num duplo sentido. Elas são projetadas com projetor e ao mesmo tempo falam de uma projeção inconsciente, psicológica, que é uma projeção ideal, a ideia de mulher. Estão inseridas nesse mundo fictício que eu crio com esse apagamento existencial, sublimadas porque não têm identidade”.

A espera IMG 2516 crédito Elisa Cohen Cortesia Anita Schwartz Galeria

Enquadramento fotográfico e silhuetas fantasmagóricas

Fantasmagóricas, as muheres de Maria Lynch estão ali e não estão, vivendo num mundo alegórico e vibrante criado pela artista. As telas têm um certo enquadramento fotográfico, pois segundo Maria partem da observação do cotidiano e muitas vezes de fotos tiradas de revista. Chegando mais perto de cada quadro, é impressionante notar a quantidade de camadas de tinta, criando texturas num efeito de profundidade.
Embalos IMG 2518 crédito Elisa Cohen Cortesia Anita Schwartz Galeria

Copy and paste em pintura

A pintura é um trabalho diário, contínuo e árduo. Maria sempre pinta vários quadros ao mesmo tempo. “Só no início uso tinta acrílica mas depois é sempre óleo, que demora a secar”, explica a artista, que começou a produzir para essa exposição em setembro do ano passado. “Demora muito, é um processo lento, com muitas camadas. O resultado lembra a fotografia nessa colagem recortada, juntada, uma coisa copy and paste de computador”, diz.

A artista começou com fotografia mas foi a pintura que possibilitou a desconstrução da realidade como ela queria. “Eu fotografava em cores mas com a pintura você consegue ordenar sua lógica própria, criar seu universo”, afirma Maria. E se tivesse que escolher uma música para seus quadros? Ela ri, fica na dúvida, mas responde: "seria 'My Funny Valentine'”.

'A questão do sexo está se diluindo'

Como vê o feminino hoje? "
Não falaria de Brasil mas de Londres, onde eu vivi", responde. "A questão do sexo está se diluindo e esses papéis, dentro da moralidade machista, estão se transformando num processo onde acontecem crises. Até os papéis se reorganizarem _ porque eles são necessários _ essa ideia de ideal de mulher, pronta e perfeita, está mudando. É um momento delicado, da morte de tudo. Você tem que restaurar certas coisas. Por isso eu gosto da pintura, porque precisa de um outro tempo".
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Maria chama a atenção para as telas de fundo preto em contraste com a cor. "Nelas, o preto rompe com todo o resto e te coloca num lugar de dor e as silhuetas estão mais desamparadas, sozinhas, mais tristes. No fundo colorido, as imagens humanas se harmonizam com o resto das formas", observa a artista, que, no segundo andar da galeria, guarda mais surpresas para o visitante.

Escultura em acrylon e tecido feita com a ajuda de uma costureira

"Disjunção espacial" foi o nome dado por ela a uma colorida centopéia esculpida em acrylon e vários tipos de tecido num patchwork elíptico. A razão do nome: "desconstruir o espaço e traduzir a pintura no contexto da escultura".
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'Ocupação macia' uma explosão de formas traduzidas na maciez do tecido

A passagem para o terreno da escultura em tecidos, pelúcia e outros materiais mais maleáveis representou uma verdadeira explosão para Maria Lynch. Ela fez o público se divertir em sua instalação "Ocupação macia", uma escultura gigantesca em formas construídas em tecido, no Paço Imperial.

"Comecei a trabalhar com tecidos em 2008 quando estava em Londres. Foi a maneira que encontrei de construir o universo da pintura no mundo físico. Passei a falar do feminino e da infância não só com o tecido em si mas com a costura. Essa coisa macia só tinha como sair para o tecido. Tentei outros materiais mas nenhum correspondeu ao que crio na pintura", explica.

Sem título vale esa

Carioca, 31 anos, filha da dançarina, coreógrafa e pintora Adriana Barreto e do neurocirurgião José Carlos Lynch, Maria começou sua arte ainda na Escola Parque fazendo esculturas em papier mâché. "Cheguei a vender uma girafa do meu tamanho por R$ 150", conta.  Com 26 anos fez mestrado no Chelsea College of Art & Design.

Próximos passos: Lima e Nova York

Entre suas principais exposições individuais estão além de "Ocupação Macia", no Paço Imperial, no Rio, a performance "Incorporáveis", no MAM, as duas em 2012. Expôs também "Retalhos", na Galeria Cândido Mendes, em Ipanema em 2006. Em 2008 foi selecionada para o Jerwood Drawing Prize, o mais importante concurso nacional da Inglaterra.

Próximos passos de Maria: uma residência em Lima, a convite do Itamaraty, e depois Nova York, onde vai morar um ano trabalhando num projeto que ela apresentou. "Será um ano tentando a princípio não pintar, trabalhando o corpo e a culpa".


 
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