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Intro Nazareth

O que te seduz? O que te causa repulsão? Essas e outras questões são debatidas em forma de arte na exposição A Origem de Tudo, em cartaz na galeria Luciana Caravello Arte Contemporânea. Ao lado de artistas como Walmor Correa e Jeanete Mussati, Nazareth Pacheco apresenta suas obras cortantes, e uma nova maneira de pensar o corpo da mulher.

Nazareth copy

Com um trabalho que choca, mas ao mesmo tempo atiça a curiosidade do espectador, em um primeiro momento Nazareth parece quase deslocada no vernissage. Como um pequeno vidro contendo o sangue da artista pode dialogar com a delicadeza dos dioramas de Walmor e com o mix entre Romantismo e Surrealismo das colagens de Jeanete? Quem explica é Waldick Jatobá, curador da mostra. “Os três, além de talentosos, tem um processo criativo parecido, uma percepção onírica do mundo. Acho que juntos, os trabalhos conversam e alcançam um sentido maior”.

Sedução e repulsão: os opostos que se atraem

Sentido esse que Nazareth faz questão de mostrar em suas obras. De longe, parecem tão sedutoras que atiçam a vontade de fazer o que há de mais proibido em galerias e museus: tocar. A vontade passa assim que nos aproximamos do objeto e vemos que, na verdade, o efeito tão bonito é causado por lâminas, agulhas, e outros objetos afiados. “O cerne do meu trabalho é a questão da sedução e da repulsão. Eu estou constantemente pesquisando novas questões, novos materiais, trabalhando com a identidade, a memória, mas sempre dentro deste tema”.

Vestidos e colar

Daí surgem vestidos com lâminas de barbear, bainhas feitas com lâminas de bisturi, colares confeccionados com agulhas cirúrgicas. Peças que, pelo menos de longe, poderiam facilmente estar em uma passarela de qualquer semana de moda. A artista “culpa” a avó. “Minha família sempre teve uma ligação forte com trabalhos manuais. Nas férias, minha avó ensinava todos os netos a fazer tricô. Acho que minha habilidade vem daí”, explica Nazareth, que também se formou em Artes Plásticas na Universidade Mackenzie, em São Paulo.

Das agulhas de tricô para as agulhas cirúrgicas

O fascínio por estes objetos tem explicação autobiográfica. Nascida com um problema congênito, Nazareth passou por inúmeras operações ao longo da vida. Ela, que começou a carreira produzindo objetos de borracha pontiagudos, logo passou a trabalhar o próprio corpo.

Nazareth borracha

A memória e a identidade

“No início eu não tinha tanta certeza do que estava produzindo, eu estava muito mais fechada, era uma coisa interna minha. Só depois de pronto eu tive a consciência de que era um trabalho de memória, de identidade, e que poderia ser uma obra de arte. Isso veio de uma forma muito mais intimista do que já construído como uma obra”, conta ela, que em vestidos delicados traduziu parte da infância. 

Vestidos1

Espéculos, agulhas e a mulher

Pensar o corpo da mulher por um ponto de vista diferente, quase de dentro para fora, foi uma evolução natural. “Eu frequentava lojas especializadas, comprava espéculo, saca-mioma, que eram objetos utilizados na manipulação do corpo da mulher e logo em seguida entraram os vestidos de gilete e outros objetos”. Um deles é um adorno feito com agulhas cirúrgicas e pequenas contas, construído como um colar. Outros são instalações com peças de cobre, que representam as gotas de sangue da artista.

Sangue, suor e lágrimas

“Conforme eu ia construindo as peças, eventualmente me cortava, mas nada grave. Um dia voltei da Alemanha com papeis maravilhosos e resolvi fazer desenhos com meu sangue”. O líquido inclusive foi parar em um pequeno frasco (“para passar a ideia de preciosidade”) que, ao mesmo tempo fascina e causa repulsa. A agonia é compreensível. Afinal, sangue está quase sempre relacionado à dor.

Taça e vestido

 

“Mas aqui, ele não está associado à morte, e sim à vida. Só pulsa e se movimenta quem tem sangue. Essas construções estão mais ligadas ao prazer. A dor está sempre presente na memória, não tanto uma dor física, mas de uma lembrança”, rebate Nazareth. Veja também no Ego!

De qualquer forma, ela entende – e até gosta – dessa dualidade. “Eu falo do corpo, falo da mulher, mas isso depois passa a ser uma questão universal. É o homem, é a mulher, é a violência. O que está sempre presente é a sedução e a agressão”.


 
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