Clô Orozco
Heloisa Marra
: Heloisa Marra

A moda perdeu Clô Orozco, uma criadora que sabia vestir a mulher, como bem definiu sua amiga, a editora de moda Hiluz Del Priore, sem entrar pelo caminho fácil da sexualidade. Em seus desfiles mais recentes na São Paulo Fashion Week, sempre assessorada pela diretora de estilo Sara Kawasaki, sabia explorar temas como o esporte, no verão de 2009/2010, em tecidos nobres, com uma sofisticação longe do óbvio. Os chapéus eram sempre objetos de desejo num estilo cultural, cinematográfico sem clichês, muito bem pensado. Existencial chique como diz o próprio nome da marca Huis Clos.

 

 

Clô, abreviatura do primeiro nome Clotilde Maria Orozco Garcia, era a cara de Isabella Rosselini. “Formada em Sociologia e Política pela USP, fazia uma roupa que refletia o mundo em que vivia. Um estilo que saía do ateliê para as ruas, intelectualizado e pensado como o próprio nome da marca Huis Clos, uma peça de Jean Paul Sartre”, afirma Hiluz.

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Ela cresceu indo todos os dias ao ateliê de alta costura das tias Lídia e Mariquita, na Rua Augusta, onde depois da escola costumava esperar a mãe. Aprendeu a modelar, começou a fazer as próprias roupas e na faculdade de Sociologia passou a ser assediada pelas amigas atrás de suas criações. O trabalho solo começou com uma pequena confecção com showroom na Rua Hungria, no mesmo prédio da pronta entrega de Glória Coelho.

Moda cultural na contramão do fast fashion

Em pouco tempo, as roupas criadas para um ateliê de alta-costura viraram motivos de desejo para muitas marcas, entre elas a Snoopy, de Traudi Guida. Numa época em que nem se falava em moda conceito, Clô teve a coragem de apresentar sua Huis Clos, marcada por uma arquitetura sutil, que apostava numa nova silhueta, contemporânea sem parecer vítima da moda. "Clô fazia parte de uma geração de criadores, à qual pertencia Maria Cândida Sarmento, da Maria Bonita, que gostava da moda cultural, na contramão do fast fashion, da roupa inspirada em arte, do blazer forrado de seda pura, da boa comida e da boa música clássica", lembra Hiluz.

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Em depoimento ao livro “O Brasil na moda”, um projeto de Paulo Borges e Giovani Bianco, a própria Clô lembrou seu início na moda: “Os clientes do Brasil todo vinham e compravam lá mesmo. Era muito fácil porque as tecelagens também trabalhavam na mesma modalidade, existia disponibilidade e a qualidade era melhor. Depois um grande número dessas indústrias fechou”. Nos anos 70, através da Splash, sua primeira multimarcas, conheceu e casou com Renato Kherlakian, criador da Zoomp.

A Huis Clos surgiu em 1977, com a estilista participando do grupo Paulista em desfiles realizados no Macksoud com styling de Regina Guerreiro. Em 1981 inaugurou a primeira loja na Rua Mario Ferraz, projetada pelo arquiteto Ronaldo Saraiva. Em 2000 abriu a da Rua Oscar Freire, com projeto de Arthur de Mattos Casas. A segunda marca, Maria Garcia, foi feita em 2001 pensando num público mais jovem, inspirada no mundo do cinema.

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Apaixonada por Hermès e por japoneses como Rei Kawakubo, Clô não era deslumbrada. “Não precisava ter uma bolsa Hermès. Era uma lady, muito chique na simplicidade”, lembra Zau Olivieri, um de seus maiores amigos.

“Clô era especial em tudo. Há três meses me convidou para levar meus netos à sua casa, que é linda. Nossa que alegria! Eles se divertiram naquela casa cheia de requintes e frescuras comendo uma pizza maravilhosa”, diz Zau.

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“Ela adorava flores e sabia criar seu próprio universo, onde tudo era lindo”, lembra Zau. “Costumava arrumar as flores em arranjos lindos dentro de vasos de cristal bordados pelo Eduardo Castro, um grande amigo dela. Nâo tinha medo de misturar. Tinha na sala um Gobelin no meio de móveis contemporâneos, uma chaise longa forrada de risca-de-giz”, conta Zau.

 Uma fábrica charmosa com a arquitetura dos anos 40

Criada oficialmente em 1977, a Huis Clos conta com aproximadamente 200 funcionários diretos e ocupa uma fábrica no bairro da Barra Funda em São Paulo com 3.300m² que foi construída nos anos 40. Completamente reformada sem perder as características da época, é um prazer visitar o prédio, que tem o charme de sua dona. Lá são produzidas as coleções Huis Clos, Clô Orozco (roupa de festa), Huis Clos, - vírgula - (roupas para a pausa), Prêt-à-Marier e Maria Garcia. Atualmente a marca possui duas lojas em São Paulo, além de estar presente em multimarcas espalhadas por todo o Brasil.

"Considero Clô uma estilista de primeira linha, de um valor extraordinário com um estilo maravilhoso e muito autoral, mas que devia estar atormentada há muito tempo", afirma Mara MacDowell, da Mara Mac. Clô passava por problemas financeiros e, segundo os amigos, havia levado um calote de um ex-gerente, perdendo da noite para o dia por volta de R$ 2 milhões e a loja do Shopping Iguatemi. Mesmo assim, segundo Roberta Damasceno, da multimarcas Dona Coisa, num dos últimos encontros parecia animada e fazia planos. “A coleção da Huis Clos é atuamente um sucesso na loja. Clô faz uma moda atemporal, que veste muitos tipos de mulher. Não tem hoje no mercado quem faça como ela. Clô é uma vencedora, sensível, que amava a arte mas não aguentou a decepção e a traição.”

 

 

 

 


 
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