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Heloisa Marra
: Heloisa Marra

Na praia de Ipanema ensolarada, Marc Jacobs não larga o namorado Harry Louis nem o livro "Just Kids", autobiografia da roqueira, performer e poetisa Patti Smith. Lançado no Brasil pela Companhia das Letras, "Só garotos" conta até que ponto duas pessoas, Patti e Robert Mapplethorpe, são capazes de chegar pela arte. Vale a pena ler.

 

 

Os dois dividiram o mesmo teto, a comida e o sonho de serem artistas na contracultura novaiorquina dos anos 60 e 70. Patti nasceu em 1946 numa nevasca em Chicago. "Eu era uma coisinha magricela e comprida com broncopneumonia e meu pai me manteve viva segurando-me sobre uma tina fumengante de lavar roupa", escreve Patti, que cresceu numa família modesta de Nova Jersey.

Sem título

Engravidou muito jovem e deu o filho para adoção. Desistiu de ser professora e abandonou no banheiro o uniforme de garçonete, dado de presente pela mãe, depois de derramar molho no casaco de tweed de um cliente. Chegou a trabalhar numa gráfica de livros didáticos na Filadélfia, onde andava sempre agarrada ao livro "Illuminations", de Arthur Rimbaud. As colegas de trabalho a perseguiam por causa do livro, achando que ela era comunista.

Patti Smith chegou a Nova York dura com Rimbaud na mala

Robert Michael Mapplethorpe nasceu numa segunda-feira, 4 de novembro de 1946 e foi criado em Floral Park, Long Island. Sua mãe queria que ele fosse padre. Ele seguiu a carreira que o pai queria, Comunicação Visual. Dedos ágeis e habilidosos, fazia colares para a mãe, precursores dos colares que mais tarde passou a usar. Com Rimbaud na mala, Patti só conseguiu ir para Nova York porque achou uma carteira na cabine telefônica.

Era o final dos anos 1960, e Patti se virou como pôde: morou nas ruas de Manhattan, dividiu comida com um mendigo, trabalhou e dormiu em livrarias e até roubou os colegas de trabalho, enquanto conhecia boa parte dos aspirantes a artistas que partilhavam a atmosfera contestadora do famoso “verão do amor”. Foi quando conheceu Mapplethorpe, a quem prometeu escrever este livro antes que ele morresse de aids, em 1989.
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O livro é lírico, bem humorado e tem momentos de luta pela sobrevivência descritos com graça. Patti Smith foi procurar emprego nas lojas de departamento de Nova York. "Nem mesmo na Capezio, uma loja de roupas de dança me aceitaram, embora eu estivesse com um visual de bailarina beatnik", escreveu a cantora, que aos poucos foi passando do estilo beatnik para uma androginia que intrigava seus anfitriões. Um deles foi o estilista espanhol Fernando Sánchez, que convidou o casal para uma festa a fantasia. Robert Mapplethorpe queria que ela fosse com um vestido vintage de Schiaparelli, que segundo Patti lembrava perigosamente o vestido que Branca de Neve usa quando encontra os Sete Anões.

Tenista de luto em festa a fantasia high society

Em vez disso, Patti foi toda de preto, arrematando o figurino com um Keds muito branco. Olhando a jaqueta, a calça e a gravata pretas de Patti, o anfitrião observou: "querida, o seu conjunto está lindo mas não tenho certeza quanto aos tênis brancos". "Mas eles são essenciais para a minha fantasia", respondeu Patti. "Fantasia? Mas do que você está fantasiada?", perguntou o intrigado estilista. "Tenista de luto", encerrou Patti Smith, que acabou sendo convidada para participar de um desfile de lingerie do estilista. Ela subiu na passarela de calcinha preta de cetim, camiseta esfarrapada, tênis branco, coberta com um boá apreto de dois metros e meio cantando "Annie had a baby".

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Paralelamente à vida pela arte, Robert e Patti tiveram uma relação que desafiou toda e qualquer convenção de um casal tradicional. "Ele havia sido criticado por negar sua homossexualidade; nós éramos acusados de não sermos um casal de verdade. Ele temia que nossa relação fosse destruída ao abrir o jogo sobre sua homossexualidade", escreveu Patti no livro "Só garotos".

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Os dois acabaram seguindo caminhos diferentes depois de uma primeira e última exposição juntos. Nunca viajaram para fora de Nova York exceto nos livros. "Robert e eu exploramos a fronteira do nosso trabalho e criamos espaços um para o outro. Quando eu entrava em um palco do mundo sem ele, fechava os olhos e o imaginava tirando sua jaqueta de couro, entrando comigo na terra infinita das mil danças".

 

 

 


 
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