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Em cartaz no CCBB até 26 de abril, Luca Bianchi e Livia de Bueno contracenam em “Dhrama, o incrível diálogo entre Krishna e Arjuna”, texto de João Falcão baseado no trecho mais famoso do épico clássico hindu Mahabharata. No Rio, depois de uma temporada em Nova York no teatro Latea, eles falam da experiência nova-iorquina e da carioca, da volta dos anos 70 e de espiritualidade.


No palco, o príncipe de Hastinapura, Arjuna, vivido por Luca, se recusa a começar a guerra, para a qual se preparou a vida a toda. Cabe a Krishna, Deus encarnado vivido por Livia, encorajar o guerreiro, reconduzindo-o ao foco da luta. Guardadas as devidas proporções, Luca e Livia viveram um dilema parecido ao decidir montar uma peça em Nova York. 

Quem foi Arjuna e quem foi Krishna nesse momento?

_ Ele foi Krishna e eu fui Arjuna _ diz Livia, rindo.
_ Os papéis foram trocados _ admite Luca Bianchi.
_ Eu nunca tinha morado fora _ continua Livia. _ E ele morou em Nova York, fez o Lee Strasberg Institut. Pensávamos em produzir um texto sobre Modigliani com Miguel Colker mas esse veio primeiro. Ficávamos em casa procurando textos para montar e Luca lembrou do Dhrama, que ele viu em 2007. Como adoramos temas ligados à espiritualidade, pensamos em fazer. Passou um tempinho e ele veio com essa ideia louca e brilhante de traduzir para o inglês.

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Ao começar a traduzir o texto de João Falcão para o inglês, Luca foi gostando cada vez mais da ideia de montar a peça em Nova York.

_ João Falcão usa palavras fortes _ conta Luca Bianchi _ como guerra, batalha e outras, que ficam bem sonoras em inglês. O sotaque, que poderia ser prejudicial, acabou contando a nosso favor. Como são dois deuses, esse sotaque acabou combinando com a atmosfera da peça.

Com uma especialista, Livia e Luca aprenderam a falar inglês pronunciando corretamente as palavras sem tirar o sotaque.

_ A tradução era legal mas tinha umas coisas no texto do João Falcão que eram muito brilhantes. Ele escrevia num português antigo. E nosso texto em inglês estava sem isso. Fomos buscar essa diferença. Um dos críticos escreveu que estávamos usando linguagem shakespeariana. Foi outro grande acerto _ explica Luca.

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Encenada entre 22 de maio e 8 de junho de 2014, a peça foi bem acolhida pela crítica em Nova York. Os dois tiveram três meses para produzir, ensaiar e apresentar. A coreografia dos gestos, que transforma a apresentação num interessante balé, foi criada por Carlos Fittante, do Balam Dance Theatre, companhia de dança balinesa, e por Marina Magalhães.

Primeira peça dirigida por Luca Bianchi, “Dhrama” tem uma estética requintada e original. Em Nova York, ele teve a ideia de pintar o cabelo de Livia de azul.

_ Luca falou: e se pintássemos seu cabelo de azul. Krishna é sempre representado por um avatar azul _ lembra Livia. E eu: não vou ter cabelo azul! Acabei pintando. Aí veio o filme: “Azul é a cor mais quente”. Ele teve a ideia muito antes do filme. O cabelo fez um sucesso absurdo em Nova York. Foi o cabelo que eu mais amei ter na vida. Para as fotos ficou lindo! A crítica entendeu o deus azul e o cabelo. Muita gente não sabe mas Krishna é um deus negro, representado pela cor azul. Em sânscrito, Krishna é um adjetivo, que significa azul escuro, negro e o feminino é noite.

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Na versão brasileira, Livia de Bueno substituiu o azul pelas tranças africanas. O figurino, de Paula Raia, para Livia é composto por uma meia calça com pérolas no tornozelo, um body, uma hot pant e uma calça por cima.  

_ A calça que uso é muito legal _ diz Luca, que veste um modelo sarouel semelhante ao de Livia._ Todas as meninas amigas minhas me pedem: me dá aquela calça pelo amor de deus!

Chão de areia, pentagrama iluminado, pequenas e delicadas luzes simulando o céu e o infinito, a luz do espetáculo é do premiado Renato Machado e no Rio, a cenografia é do arquiteto Miguel Pinto Guimarães, um apaixonado por teatro.

Dias de Arjuna em Nova York

Em Nova York, a adrenalina da estreia fez Livia chegar a ter medo de não dar conta do texto.

_ Foram dias de Arjuna _ brinca Luca.
_Tem um pedaço de Krishna com três páginas. Eu pensava, não vou conseguir _ lembra Livia. _ Foi um grande desafio mas maravilhoso. A gente pulsou muito como artista. Resolvemos morar fora, casal, fazer arte. Escolhemos fazer um trabalho em vez de estudar. Foi ótimo!

A espiritualidade é um dos temas que mais interessam a Livia. Ela conta que se converteu ao budismo com 24 anos.

_ Foi um grande achado _ diz Livia, que está com 31 anos. _ Eu era católica, frequentava a igreja mas depois virei ateia. Não sou muito ligada a grupos. Gosto muito do que o Osho fala: que a busca individual é mais interessante do que você ficar preso a uma instituição. Gosto da religião no sentido de religare, a ligação com a sua espiritualidade. Gosto do paganismo, através do qual você se liga à natureza.

Na hora de descansar, além de meditar (prática que tem sido mais difícil para Luca nos últimos dias) cada um tem um hobbie. Livia adora moda e astrologia e Luca estuda Física.

_ Sou católico _ conta Luca _ mas nunca consegui me integrar com religião nenhuma. Passei por várias mas me encontrei na meditação individual. Minha busca é conectada com a ciência e a física. Estudo muito porque acho que é ali que está a espiritualidade. Se a religião de todo mundo fosse aquela, estaríamos em outro estágio.

Dhrama e a volta dos anos 70

A encenação de Dhrama acontece num momento de volta dos anos 70 na moda e no comportamento. Livia e Luca gostam de festivais. Não só os de música mas festivais como o Be In, em Portugal, com música, dança, xamanismo e healing. Recentemente os dois fizeram um curso de cabala no Instituto de cura Esalem em Big Sur, na Califórnia.

Livia lembra que o Bhagavad Gita era a bíblia dos anos 70.

_ O Raul Seixas tem uma música chamada Gita. Acho que o Brasil deveria ser um país hippie. Nós perdemos uma oportunidade, que foi a Marina. A gente se dividiu entre Dilma e Aécio e perdemos a Marina, a única política que até hoje se colocou a favor de um Brasil sustentável _ diz Livia _ Na moda eu nem sou tão anos 70. Sou mais boyish. Gosto de calça de alfaiataria. Filosoficamente e psicologicamente eu amo os anos 70.

Para Luca Bianchi, os ideais dos anos 70 de repente se perderam:

_ Nos anos 70 
foi como se pela última vez estivéssemos num caminho correto. Depois fomos para um lugar muito esquisito. Existia um sentimento de união, de que o material não é tudo, uma vontade de compartilhar, a  música... De repente se perdeu. Eu curto as coisas dos anos 70. Gosto muito de surfe e o surfe dos anos 70 tinha pranchas mais grossas. Você não ficava fazendo um monte de manobra. Surfava junto com a onda. Era um surfe mais macio.

Fotos: Vicente de Paulo

 



 


 
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