Heloisa Marra
: Heloisa Marra

Com vocês os melhores momentos de O Boticário na Dança. O grafismo de Michael Clark, o encontro de Índia e Espanha empolgando o público com Akram Khan e Israel Galván e o clima jazz do balé de Edouard Lock para a companhia sueca de Birgit Cullberg. 


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Para ex-bailarina de Maurice Béjart, festival é oportunidade única

Até o último domingo, O Boticário na Dança apresentou espetáculos nacionais e internacionais de alto nível, com curadoria de Dieter Jaenicke e Sheyla Costa, ex-bailarina do Balé do Século XX, de Maurice Béjart. "Uma oportunidade rara de conferir peças que, se não fosse o evento, talvez jamais fossem exibidas no Brasil", afirmou Sheyla.

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Entre elas, o encontro entre o bailarino e coreógrafo Akram Khan (40 anos), nascido em Londres, mas de ascendência bengali, e o espanhol Israel Galván (41 anos), filho de dançarinos sevilhanos. Com um multiculturalismo típico do novo milênio, eles emocionaram o público, que aplaudiu de pé vigorosamente com direito a gritinhos. Atitude geralmente impensável, em se tratando do espírito cool carioca, ainda mais no Municipal.

O big bang sonoro de Akram Khan e Galván

Depois do espetáculo, em bate-papo, os dois responderam a perguntas do público e falaram com HM. Eles se
conheceram em Barcelona, apresentados por um amigo comum que dirige um teatro. "Assim nasceu 'Torobaka', com movimentos criados em um mês, após uma espécie de big bang musical", ressalta Galván, referindo-se à explosão sonora que irrompe em cena. Nela, Akram Khan e Israel Galván contrastam e fundem as danças típicas de seus países: o kathak (de Bangladesh) e o flamenco (da Espanha), unidos pelo que ambos têm de comum em trajetórias tão diferentes.

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"A desconstrução de processos é nosso fio da meada", afirma Khan, completando em seguida: "A construção narrativa dessa obra vem do som, já que nós temos trabalhos individuais tão diversos". "Para isso, é preciso um amadurecimento grande para poder realizar este balé", acentua Akram Khan. "É importante sentir o corpo como um todo, mas compreender também a independência de suas partes".

Touro e vaca, animais sagrados na origem de Torobaka

Os animais sagrados de seus países, o touro (personagem do imaginário flamenco, daí "toro") e a vaca (na Índia,
"baka") foram os pontos de partida para um espetáculo bem resolvido, com domínio de cena impecável e ótimo humor, que surpreende por não cansar, em se tratando de uma peça inteiramente dançada por apenas dois bailarinos.

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Além da leveza usada como artifício para aliviar a densidade emocional, a generosa divisão do palco com quatro cantores causa o êxtase na plateia, preenchendo a escuridão do palco. Juntos, eles sobrepõem sonoridades de ambas as culturas. Todos excelentes, viscerais, poesia pura. Mas merece destaque a única mulher, Christine Leboutte, idosa, forte, quase andrógina por vezes.

Clássicos de ópera em clima indiano

No repertório flamenco, é possível o ouvido treinado perceber trechos de clássicos espanhois como "Anda jaleo" e "La liebre" (de "Las Correleras de Lebrija"), além de um pequeno pedaço de "La Séguédille", importante passagem de "Carmen" (ópera de George Bizet), que surge de relâmpago em interpretação vigorosa. Tudo junto e misturado com músicas nada comuns ao ocidente, mas com cadência indiana reconhecível.

São justamente essas sobreposições de musicalidade que criam o efeito pretendido pelos artistas. "Esse espetáculo é como um concerto, somos músicos dançando", deixa claro Akram Khan.

Como os dois ritmos são altamente musicais, os próprios Khan e Galván se encarregam de reforçar a percussão com seus sapateados típicos, palmas, estalar de dedos e o tilintar dos penduricalhos na barra da calça do londrino, num jogo de causa e efeito. Tudo amplificado pelo canto dos quatro coadjuvantes e o singular batuque que estes fazem ao vivo.

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A Michael Clark Company, companhia britânica fundada em 1984 e destaque em turnês pela Europa, América do
Norte, Ásia e Oceania, mostrou aqui programa duplo, começando com "Come, been and gone", embalada por músicas de David Bowie, e "Animal/vegetable/mineral", com trilha Sex Pistols e Scritti Politti.

De fato, Michael Clark arrasa! A começar pelo aspecto gráfico do trabalho do coreógrafo, um dos mais importantes da Inglaterra atualmente. No primeiro balé, ele brinca com contrastes de figura e fundo, criando primeiro belos efeitos visuais entre o figurino negro e o painel de fundo iluminado por cores fortes para depois inverter, usando um telão negro como moldura para os bailarinos.

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O desenho de cena impressiona, com perfeito equilíbrio entre os movimentos individuais e a ocupação do imenso palco, muito bem aproveitado por um corpo de baile de somente seis bailarinos. E, se no ato inicial são as pernas que conduzem a coreografia, no seguinte, braços nervosos dominam boa parte da apresentação.

No aclamado "Animal/vegetable/mineral" – destaque cultural do ano no "Daily Telegraph" e "The Times" em sua primeira temporada –, o encenador pinta e borda com layers, como se a linguagem dos videoclipes, estetizada por efeitos de computação gráfica, fosse espinha dorsal para a concepção geral.

Explosão gráfica integrando rock e dança

De tirar o fôlego, dos grafismos e palavras projetados na parte introdutória (e que praticamente dançam junto com os bailarinos) até a banda Relaxed Muscle, em registro na tela e formada por Darren Spooner (vocal), JP Buckle (guitarra) e Zee Grisedale-Sherry (bateria), interagindo com o elenco de carne e osso.

Nascido em 1962, o criador soube retratar o aglomerado multimidiático de sua geração, integrando dança contemporânea e imaginário da cultura pop-rock. O figurino (de Stevie Stewart e do próprio Michael), apesar de minimalista, é importante elemento de composição cênica, com os long johns usados pelo elenco intercalando looks em color blocking ou optical art sob luz exuberante.

Cullberg Ballet evoca Bob Fosse

Uma levada de Bob Fosse. Essa foi a impressão deixada no público pelo Cullberg Ballet, companhia sueca com longa estrada criada em 1967 por Birgit Cullberg, ícone internacional da dança. Visceral, o espetáculo "11th Floor" mistura contemporâneo com desenhos e movimentos típicos do jazz que caracteriza o famoso coreógrafo dos musicais da Broadway.

"O clima meio bafônico da peça tem muito a ver com Fosse", afirmou Kiko Guarabira, profissional brasileiro que se fez nessa área e atuava, durante os anos oitenta, na série "Fama" (Fame), da TV norte-americana, inspirada no filme homônimo. "Acho que, no fundo, essa obra tem coisas de 'Sweet Charity'. Não tem como não associar", opinou Beto Pacheco, que trabalhou em musicais como "Não fuja da Raia" nos anos 1990, com Claudia Raia.

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De fato, os movimentos fragmentados de mãos e pés nervosos, os ombrinhos, a projeção dos quadris para a frente e as andadas de salto alto (tipo desfile de moda) dessa obra lembram muito a identidade de Bob Fosse nesse trabalho criado por Edouard Lock. Canadense, nascido no Marrocos, 61 anos, pisciano, Lock é conhecido por ter fundado na década de 1980 o incensado Lalala Human Steps, famoso pelas performances energéticas e acrobáticas.

Para completar, o belo figurino de festa criado por Ulrika van Gelder, todo em negro, dá esse clima de bafão noturno, reforçando ainda mais a semelhança com o legado de Bob Fosse. Só faltam as piteiras da cena do baile de "Sweet Charity"...

Quem foi ao festival

O Boticário na Dança
,
Por Alexandre Schnabl

 


 
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