Heloisa Marra
: Heloisa Marra

Do look destroy em "Mad Max – estrada da fúria" à exuberante fantasia renascentista de "Il racconto dei racconti", o apuro visual domina o maior evento do cinema mundial.

A edição 2015 do Festival de Cannes nem chegou à metade ainda e "Carol" – o romance lesbian chic baseado na obra de Patricia Highsmith, dirigido por Todd Haynes e estrelado por Cate Blanchett – já desponta como forte candidato a arrebatar a Palma de Ouro na competição oficial e, possivelmente (comenta-se!), o Oscar 2016. Mas, entre o novo Woody Allen ("Irrational man", já considerado como um dos grandes trabalhos do cineasta) e a vaia generalizada que Gus Van Sant recebeu por seu "The See of Trees", a fantasia impera no evento em produções cujo figurino é destaque.

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O requinte visual parece ter tomado conta do evento, do avassalador lançamento de "Mad Max – estrada da fúria" (Mad Max: Fury Road, Warner Bros, 2015, alinhado com a estreia mundial nas salas de exibição) à delirante exuberância de "O conto dos contos" (Il racconto dei racconti, Archimede e outros, 2015), a fantasia made in Italy que concorre ao prêmio principal.

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Aclamado pela crítica e já com bom desempenho nas bilheterias, o novo "Mad Max" é o quarto filme da saga apocalíptica iniciada em 1979 e que pôs Mel Gibson (agora substituído por Tom Hardy) no mapa das estrelas, capitaneado pelo mesmo George Miller, que lançou a trilogia original.

Agora amparado pela contundência dos efeitos digitais (CGI), o diretor retoma o argumento de um futuro devastado onde água e combustível valem ouro. E, como nos três filmes anteriores, o visual dos personagens chama atenção. Se, antes, a crise do petróleo que assolava o planeta e a estética punk definiam os parâmetros para os modelitos pós-civilização usados pelos personagens, agora é a recessão global e iminente (e real) escassez das reservas hídricas que dão as cartas no visual criado pela figurinista Jenny Beavan para o longa-metragem.

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Para reforçar a ideia, ela se deixa influenciar pelo conceito de tribos urbanas do pesquisador de moda Ted Polhemus e pelo ressurgimento do look destroy (dos anos 1990, reciclado nestas últimas temporadas) para conceber as vestimentas, com destaque para a Imperatriz Furiosa (Charlize Theron roubando a cena) e uma gangue de mulheres, que vão do estilo easy rider à estética militar – outra tendência dos noventa que também começa a dar as caras nas vitrines e araras.

Soma-se a isso um elemento que nos anos 1980 ainda era incipiente: a body modification. É enorme a quantidade de piercings, escariações, tattoos e até próteses que comparecem na pele dos diferentes tipos que circulam pelo deserto australiano da história, conferindo a devida modernidade ao resultado.

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Já "O conto dos contos" – ótima surpresa dirigida por Matteo Garrone, que costuma encabeçar produções nada fantasiosas como "Gomorra" (Idem, 2008) e "A grande ilusão" (Reality, 2012) – envereda pelo universo mágico de Giambattista Basile (1566-1632) e traz três histórias ambientadas em reinos distantes repletos de reis, ogros, dragões, bruxas e até uma pulga gigante!

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Prova de que até os europeus andam se rendendo à moda dos contos de fada live action, como "Cinderela" (Cinderella, de Kenneth Branagh, Disney, 2015) e "Malévola" (Maleficent, de Robert Stromberg, Disney, 2014). Com Salma Hayek e Vincent Cassel à frente do elenco, a indumentária desenhada por Massimo Cantini Parini – que começou como assistente de figurino em produções caprichadas como "A Fantástica Fábrica de Chocolates" (Charlie and the Chocolate Factory, de Tim Burton, Warner Bros, 2005) e "Os Irmãos Grimm" (The Brothers Grimm, de Terry Gilliam, MGM e outros, 2005) e hoje é titular de grandes realizações – tem grandes chances de faturar a categoria de costume design na próxima temporada de premiações do cinema.

Por Alexandre Schnabl

 


 
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