×

Aviso

JUser: :_load: Não foi possível carregar usuário com ID: 1493

Carol Intro

A pesquisa aprofundada de certos temas faz parte do trabalho de Carol. Para o livro Sinuca Embaixo D’Água, ela chegou a frequentar uma madeireira para traduzir o ambiente com precisão. Em Faíscas, o pedido – mais comum no cinema e na TV do que na literatura - não foi por acaso. Cora frequenta a faculdade de moda em Paris e era preciso que cada figurino e cada fala da personagem fossem coerentes com a personalidade criada pela escritora.

Faíscas de Cora

“O livro é um romance de estrada que se passa no interior do Rio Grande do Sul durante a maior parte do tempo. As personagens, Cora e Julia, são duas garotas que não se vêem há muito tempo. As duas embarcam nessa viagem em uma espécie de retomada daquela relação, que tem algo de mal resolvida. É um livro sobre relações complicadas, dramas familiares, estranhamento, terra natal, distância, juventude e algumas outras coisas. Talvez sobre moda também”, conta a autora.  

Carol e Dani

Apesar de Carol ter criado as personagens sozinha era preciso uma varredura em todas as partes com descrições de roupas, cortes de cabelo, acessórios e maquiagem. Para este trabalho tão meticuloso, a escritora procurou alguém que, além de moda, entendesse também de literatura. Encontrou em Dani a figura ideal. Ela aceitou o convite de imediato: “Como ninguém pensou nisso antes? Achei genial!”.

Jornalista, figurinista e freelancer: as várias facetas de Dani

A amizade e afinidade entre as duas já era antiga. “Conheci a Carol há mais de dez anos, em uma oficina literária de Luiz Antonio de Assis – de onde saíram, além dela, os jovens talentos Daniel Galera e Daniel Pellizzari. Sou formada em jornalismo e sempre me interessei por figurino. Hoje faço mestrado em Arqueologia Geral e Contemporânea na Sorbonne, em Paris, onde moro há três anos”, explica Dani.  Se credenciais a moça tinha de sobra, faltava apenas o trabalho em si. Como dar corpo – e um guarda-roupa – a duas personagens fictícias?

Cora2

“Acho que, no fim, o trabalho de figurinista é essencialmente o mesmo. A Carol me passou o original do livro com anotações e algumas referências do que ela imaginava para os personagens principais. A primeira parte do meu trabalho foi visualizar bem fisicamente a Cora e a Julia e entender como a história de vida delas se refletiria no guarda-roupa de cada uma. Depois me concentrei mais nas necessidades da narrativa, nas descrições das roupas, cabelo e maquiagem, sempre juntando referências de street style e pessoas de verdade para discutir com a Carol.”

Longe das vitrines, para a autora, moda é fenômeno social

Neste ponto do processo, o trabalho de Dani foi fundamental. A autora se diz mais observadora da moda como fenômeno social, do que fashionista. “Vou dar um exemplo que vai fazer com que eu pareça uma negação em matéria de vaidade feminina, mas vamos lá: em determinada cena eu tinha escrito que uma personagem estava pintando as unhas dos pés de esmalte incolor. Só depois de meses é que parei e pensei ‘faria algum sentido alguém pintar as unhas com esmalte incolor? ’ E é claro que não fazia nenhum”.

Cora3

As semelhanças entre criadora e criatura não são assim tão raras. Como Carol, Cora também vê a moda como uma forma de expressão. Enquanto a autora de vez em quando cisma com “uma calça verde ou botas de caubói”, a personagem também faz escolhas estéticas muito particulares e se sente muito mais atraída pela moda da rua do que pelas grandes marcas da passarela.

À moda de Cora

Cora1

Mas afinal, qual seria o estilo da personagem? É Dani quem responde: “Ela tem um estilo meio rocker, com jeans rasgados e botas Doc Martens, mas tudo com uma certa rebeldia, nada a ver com tendências. Ela não gosta de nada muito “feminino” como laços, rendas e salto alto, que vê como uma expressão de fragilidade. Mas isso não a deixa menos menina. Cora usa os olhos esfumados, calça skinny e a alça do sutiã à mostra. Sendo estudante, ela não teria como gastar com grifes, então imagino mais uma mistura de peças básicas ou garimpadas em um brechó, na Cheap Monday ou Zadig&Voltaire, por exemplo”.

Mas Dani e Carol fazem questão de dizer: não há uma personagem exata. “A Cora é todas e – ao mesmo tempo – nenhuma”. E para imaginar sua própria Cora é preciso ler o livro, que tem lançamento previsto para este ano ainda, pela Companhia das Letras. 

 
amandas_heloisa_marra.png