Buscando inspiração na cultura de moda brasileira?

Vou contar pra vocês a história de uma mulher que veio do Nordeste para revolucionar a elegância carioca. Tenho certeza de que esta história vai te inspirar a pensar e a criar de forma diferente.

Talvez alguns de vocês conheçam e outros não. Mas é um dos melhores exemplos de empreendedorismo e sucesso que eu presenciei, baseado em cultura de moda.

Maria Cândida Sarmento e

Com uma alfaiataria casual mas sofisticada ela conquistou a carioca. E num momento em que muitos designers davam seu próprio nome à marca, preferiu batizar a sua com o de uma heroína do cangaço: Maria Bonita.giselemariabonita

Se você estuda ou já é um profissional de moda e ainda não conhece Maria Cândida Sarmento, fundadora da Maria Bonita junto com a amiga Malba de Paiva, pára tudo agora. Até hoje sua alfaiataria fluida e feminina é inspiradora assim como sua visão de mercado.anaclaudiamichelsmariabonitaAnos 70, num Rio de Janeiro em ebulição, encantado com os desfiles e lançamentos do Grupo Moda Rio, formado por Marilia Vals, José Augusto Bicalho, Marco Rica, Beth Brício, Sonia Mureb, Ana Gasparini, Teresa Gureg, Suely Sampaio e Luiz de Freitas, ela veio de Alagoas para conquistar o Rio instalando-se primeiro num showroom na rua Siqueira Campos e depois na Rua Vinicius de Moraes, em Ipanema. Isso quando a maioria das grifes importantes ainda se concentrava em Copacabana.
Maria Bonita Extra Ana laet

Maria Cândida Sarmento foi pioneira em lançar a Maria Bonita Extra, uma marca mais jovem e acessível em termos de preço, e a ponta de estoque Marcas & Cia. Criação e consumo andavam lado a lado para Cândida, que apesar de low profile foi uma das maiores lideranças na moda brasileira.

Cândida morreu em 2002, deixando uma empresa com 13 lojas próprias e três franquias no Brasil. Seus dois sócios Malba de Paiva e Alexandre Aquino continuaram o trabalho da marca em coleções bem produzidas que até 2012 desfilaram na São Paulo Fashion Week.

Inverno2011Com a Maria Bonita aprendemos a usar oxfords com ternos super femininos e sandálias rasteiras com longos. Passamos a querer um luxo cheio de sutilezas como o forro de seda colorida num terno cinza ou uma saia de seda amassada quebrando a formalidade do blazer. Mas principalmente vimos a importância de se olhar a moda como cultura. Ela adorava o Theatro Municipal, Paris, os estilistas japoneses, que na década de 1980 simplificaram a silhueta no hoje tão famoso minimalismo, e a gastronomia.
sapato oxford inverno 2012

Champanhe com sururu

Era uma chef de primeira e traduzia no sururu servido com champanhe sua sofisticação descontraída. Uma vez adorei quando, com a maior simpatia, me convidou para visitar seu escritório, na ocasião um casarão antigo recuperado no Largo dos Leões: “Vem me ver e comer um queijo quente com banana”. 

A Maria Bonita fez parte de uma linhagem de marcas que valorizavam a roupa bem cortada apoiada em muita cultura de moda. Talentos como Georges Henri, Andrea Saletto, Lucia Costa, Marcia Pinheiro e Alice Tapajós.

montagemandreamarquesA Marca de Cândida  foi uma escola para o nascimento de novos designers. Isabela Capeto começou lá sua carreira. Andréa Marques, hoje à frente de sua própria grife, trabalhou 14 anos no estilo da Maria Bonita Extra inventando mil estampas e misturas de cores. Durante nove anos Danielle Jensen assumiu o estilo depois da morte de Maria Cândida, de quem foi assistente durante cinco anos.

Quer se inspirar mais? Inscreva-se na minha nova série Mapas de Estilo das Décadas. Serão 100 anos de cultura de moda em 10 meses.